(Carlos Esperança, in Facebook, 21/04/2025, Revisão da Estátua)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Não esperem, os leitores, que o primeiro presidente da Associação Ateísta Portuguesa (2008/2020) se manifeste desolado com a morte do Papa. Nem sequer sinto tristeza, sinto-me, aliás, aliviado pelo fim do sofrimento do homem bom e generoso.
Deixo a consternação aos parasitas da fé, aos narcisistas que se gabam dos minutos de vida que estiveram com o líder dos católicos, aos vampiros do seu prestígio.
Ainda ontem vi o moribundo exibido e explorado pela Cúria, pelos funâmbulos da Cruz, como o fazem há dois mil anos ao corpo de Jesus, usando palavras dos versos de Guerra Junqueiro. Obrigaram-no a receber J. D. Vance, um celerado mais próximo do Opus Dei do que do Papa.
Agora que morreu, é ver os parasitas a explorar os sentimentos dos devotos para fins de propaganda pessoal, o Moedas a atribuir ao Papa o tratamento por tu que lhe teria dado, o Paulo Rangel a dizer que, para lá das questões que foi tratar como ministro, Francisco quis saber quem era o Paulo Rangel (sic), e o comentador Jorge Botelho Moniz, o nome causa calafrios a quem recorda o papel de outro Jorge Botelho Moniz na Guerra Civil de Espanha, a enaltecer o Papa que o horrorizou nas declarações sobre a guerra na Ucrânia.
Falta Marcelo a usar o telejornal das 20H00 para manifestar a bajulação habitual de um PR a que a Constituição exige respeito pela laicidade e de Montenegro que usará a sua morte para proveito próprio como fazem todos os parasitas da fé.
Os que se calam perante as perseguições aos cristãos e aos seus templos – que metódica e inexoravelmente vão sendo queimados pelo fundamentalismo islâmico -, os que ocultam a vindicta contra os cristãos na Síria por um terrorista da Al Qaeda promovido a aliado do Eixo do Bem, são aqueles que agora manifestam compunção com a morte do Papa.
Como ateu, recordo o líder de uma teocracia que é hoje a sede espiritual de uma religião bem melhor do que qualquer outra da concorrência, o primeiro pontífice que condenou a pena de morte, quem foi a Lampedusa chamar a atenção para os refugiados sobrevivos do Mediterrâneo e que foi insultado por defender a paz quando o belicismo interessava aos que vivem do negócio das armas. Destaco particularmente a oposição às guerras na Ucrânia e em Gaza, que lhe valeram a ira dos responsáveis e o silêncio dos covardes.
Pela influência que o Papa exerce em milhões de crentes e pelo exemplo que pode dar a não crentes, desejo que os cardeais que criou, uso o termo canónico, não traiam e votem em quem seja capaz de continuar o seu profícuo magistério.
O Papa Francisco realmente conseguiu libertar-se do seu papel institucional, da liturgia e do protocolo enquanto representante do Estado do Vaticano (pontifex maximus é um cargo que já existia na Roma Antiga, tem um papel de magistério sacerdotal mas o imperador tornou-se sumo pontífice de Roma, antes da conversão do império ao Cristianismo por Constatino), e aproximar-se dos “desinstituídos”, dos “desapossados”, tornando-se ele sim um exemplo de “afectos” desinteressados, de proximidade com os “desvalidos” e os “debilitados” da sociedade, não aparentes na forma, como muitos fazem nos intervalos das reuniões corporativas, mas simbólicos pela sua autenticidade. E não que estivesse bem com Deus e o Diabo, apesar de se relacionar também com líderes políticos e empresariais, corporativos e militaristas, sempre denunciou os abusos e identificou os aspectos e os problemas estruturais e conjunturais, pois não misturava as pessoas com as formalidades sociais – aliás, realçava que as pessoas deviam ser o centro e ter o destaque, e não os formalismos económicos, políticos, religiosos, etc.
Não vou fazer aproveitamento político ou ideológico da morte de Jorge Bergoglio, que me parecia, pelo que foi enquanto Papa, um ser humano muito inteligente, com personalidade e exemplo de altruísmo, humildade e sabedoria, e ter uma espiritualidade muito terra a terra, no bom sentido, realçando os perigos da sociedade de consumo e produção actual, no seu materialismo e nas suas formalidades tecnocráticas, que criam tantas desigualdades, sofrimento, mortandade e destruição. Sobretudo alguém que não tinha medo de dizer o que sentia e o que pensava, e que procurava na fé cristã uma fórmula de corrigir e dissipar os males do mundo. Com muita incompreensão por vezes, por colidir com as “narrativas únicas oficiais”, e por expor o Evangelho desprovido de pretenciosismos puritanos ou supremacistas.
«ELOGIO DA DESOBEDIÊNCIA»
https://www.dn.pt/author/antonio-carlos-cortez-2
Muito bom.
«SOLTEM AS NOTÍCIAS»
https://www.paginaum.pt/2025/04/21/habemus-cadaver-soltem-as-noticias
“A Arte de Bem Escrever em Toda a Sela… Com Um Bisturi”
Muito bom, amigo Zé Povinho. E já agora, atrevo-me a sugerir, a merecer destaque na Estátua de Sal.
E tendo em conta a intervenção demolidora de Francisco, contra a máfia do armamento e da morte, na Urbi et Orbi de domingo, não teriam aproveitado o seu frágil estado de convalescença para finalmente calar uma voz que sempre foi incomoda?
Desde o dia em que lançou o seu “esta economia mata” quando a máfia neoliberal troikana se cevava nos povos do Sul da Europa em especial Portugal e Grécia?
Quando por cá um cardeal mandava comer e calar porque “não e aos gritos nas ruas que se resolvem problemas”.
Acho estranho isso de alguém que ha muito esta atravessado nos poderes deste mundo, em especial a Ocidente, se levantar as seis da manhã, se começar a sentir mal e se finar como um passarinho depois de resistir tanto tempo a doença.
Não seria a primeira vez que tal acontecia e esta gente já provou que não recua perante nada.
Aqui fica mais uma teoria da conspiração para que me chamem uns nomes.
Mas uma coisa e certa, nunca mais o bando de cardeais elegerá alguém com este perfil.
Francisco foi um erro de casting. Pensavam que pelo facto do homem ser crítico do governo de Cristina Kirchner no seu país isso faria dele alguém próximo do neoliberalismo e direita radical em geral como acontece em muitos prelados na América Latina.
Mas o Papa que veio do fim do mundo revelou se um bom bico de obra a aviar e só estranho que não se tenha sentido mal mais cedo.
De resto também não acredito em poderes lá de cima e daí aquilo que já foi chamado “obsessão”. Não acredito que os meus mortos estejam num sítio melhor. Nem que os culpados disso que já morreram estejam num sítio pior.
O mesmo vale para o homem decente que ontem se finou.
Se foi morte natural ou matada não ponho as maos na água quente quanto mais no fogo.
O articulista está se a esquecer que também os israelitas destruíram sítios cristãos tanto em Gaza como no Líbano e na Síria, alguns com mais de 1000 anos de existência.
Muitos israelitas expressam um profundo ódio aos cristãos e isso foi bem patente quando, nas ruas de Israel se perguntou se era certo cuspir em cristaos depois de um alarve israelita ter cuspido num padre na Cisjordânia.
Alias, muitos disseram que se devia matar os cristãos e o que e certo e que os bombardeamentos indiscriminados israelitas também mataram gente cristã.
O primeiro grande ataque a infra estruturas hospitalares em Gaza foi contra um hospital Baptista.
Rabinos israelitas teem referido a necessidade de matar os “infiéis” e quando falam em “infiéis” estão a incluir todos os não judeus.
Também há um jihadismo israelita, não só contra muçulmanos, mas desse ninguém fala. Mas dava jeito que começassemos a falar também dele. Porque mata tanto ou mais que o outro.
E o que temos é canalha vil a dizer atrocidades como essa de ser “cristão sionista” esquecendo os cristãos que teem a desdita de ser vizinhos de Israel ou viver em Gaza sendo sujeitos a mesma estratégia de bombardeamentos e cercos pela fome.
Quando Israel bombardear o Irão vai poupar os cristaos que lá vivem?
Estátua amiga, deixei-te uma amêndoa esta tarde. Um abraço.
Obrigado Joaquim. Bem-haja. 🙂
De Carlos Esperança, ateu como eu, uma oração à lucidez e uma escarreta na estupidez.
«FRANCISCO, A PAZ E A ROMARIA DOS HIPÓCRITAS»:
https://www.abrilabril.pt/internacional/francisco-paz-e-romaria-dos-hipocritas